Estresse: na medida certa para a produtividade

Tempo de leitura: 8 minutos

Muitas empresas ainda subestimam os efeitos danosos do estresse excessivo em relação aos níveis de produtividade. Há inclusive setores que consideram ainda altos níveis de estresse como naturais no segmento e benéficos para a produção, como algumas organizações na área de mídia e jornalismo ou finanças e mercado de capitais.

Não se engane, o estresse pode agir devagar, mas é um vilão que aos pouco rouba sua produtividade, e às vezes isso acontece de forma velada, quase invisível. Ao contrário de outros índices relacionados à produtividade, o estresse dificilmente pode ser medido e, além disso, ele geralmente é suportado por profissionais até que seja tarde demais.

Alguns profissionais, a depender de seu perfil comportamental, possuem melhor desenvoltura em situações de alta pressão e estresse, porém nenhum funcionário é capaz de aguentar indefinidamente um clima estressante, de modo continuado e por grandes períodos de tempo.

Exigência do meio

Funcionar bem sob pressão significa que determinado profissional tem maior capacidade de improvisação, presença de espírito e liderança para conduzir uma situação com prazos e recursos desafiadores até seu desfecho. Não significa que esse colaborador gosta de trabalhar sempre pressionado e com imensa carga de estresse e desconforto emocional.

O estresse prolongado, comprovadamente, tem consequências relacionadas não apenas à produtividade e ao moral do profissional, mas também à sua saúde. Qualquer médico ou psicólogo do trabalho sabe que empresas que pressionam e expõe seus colaboradores a um nível maior de estresse apresentam graus muito mais elevados de absenteísmo, licenças por motivos médicos e doenças de cunho nervoso e emocional.

A partir de determinado momento, sua produtividade passa a ser atacada por todas as frentes: profissionais faltando por conta de doenças adquiridas por sua baixa imunidade, falta de interesse e comprometimento, aumento dos atendimentos clínicos in loco, maior rotatividade de pessoal, e por aí vai.

Um estudo da consultoria americana Towers Watson, com mais de 22 mil colaboradores em firmas de 12 países – em média, mais de 30% dos funcionários consideraram que seus ambientes de trabalho possuíam altíssimos níveis de estresse. Desse total de pessoas, mais de metade tinha planos para simplesmente deixar o trabalho ou buscar novas oportunidades. Nos quase 10% de pessoas que alegaram trabalhar em ambientes com baixo nível de estresse, apenas 1 em 10 funcionários têm algum plano de mudança ou desligamento da empresa.

Engajamento

O estresse reduz o engajamento, e um menor engajamento cria impacto negativo na produtividade de forma quase que imediata. A depender do perfil comportamental de cada funcionário, ainda precisamos lidar com consequências como a falta de comprometimento ou até mesmo sabotagens, ponto no qual colaboradores não apenas produzem menos, mas passam a conspirar contra os resultados da organização em que trabalham.

Por outro lado, pesquisas que já completam mais de um século também apontam determinados aspectos positivos do estresse no desempenho, rendimento e até aprendizado, o que demonstra que o “X” da equação não está na eliminação, e sim na gestão do estresse como fator motivacional ou danoso dentro das empresas. Aliás, um estudo muito interessante do início do século XX é ainda bastante esclarecedor a esse respeito.

A lei de Yerkes-Dodson

Mas calma, estudos dizem que o estresse e a ansiedade têm um limite até o qual a produtividade pode na verdade subir – mas a partir desse ponto, a trajetória é apenas negativa. O gráfico que mostra esse tipo de comportamento é conhecido como Lei de Yerkes-Dodson.

A lei sugere que até que se chegue a esse ponto limite, a atenção e o interesse do profissional aumenta. O ponto representa o máximo de atenção e interesse despertados pela tensão e ansiedade. Passando esse ponto, o estresse começa a ter efeitos danosos e os níveis de ansiedade do profissional atentam contra suas habilidades, tornando-o desatento, desastrado, mais suscetível a falhas, acidentes e equívocos.

Próximo ao pico de produtividade, segundo Yerkes e Dodson, está a zona de tolerância à pressão de um profissional. A lei ainda demonstra que a área de tolerância à pressão tende a ser maior em tarefas mais simples e menor naquelas que exigem mais e são mais complexas, como mostra o gráfico.

estresse

Fonte: Baguete

Em outras palavras, a Lei de Yerkes-Dodson derruba outra pressuposição em recursos humanos: a de que absolutamente toda e qualquer carga de estresse é negativa ou deve ser evitada.

O interessante é que a coisa toda não é uma novidade. O estudo de Robert M. Yerkes e John D. Dodson foi publicado ainda em 1908.

E há explicações clínicas para esse fato. Os hormônios do estresse, a adrenalina e o cortisol, são descarregados no sangue pela pituitária, pelo hipotálamo e pelas glândulas suprarrenais. Esses hormônios aumentam nosso estado de alerta. Vasos sanguíneos se dilatam, ampliando o fluxo e a irrigação, músculos se contraem, a respiração acelera – sentimos mais vigor e energia, e nos sentimos mais propensos a realizar qualquer tipo de tarefa.

Fisiologicamente, o estresse é algo que aciona uma resposta mais rápida do organismo, tanto fisicamente como mentalmente, nos tornando mais rápidos, dispostos e atentos. Mas há um certo limite, e à medida que a carga desses hormônios se mostra demasiada, começamos a sofrer das mazelas físicas e emocionais da ansiedade.

Como medir o nível certo de estresse?

Departamentos de RH podem não apenas lançar mão das tradicionais entrevistas e relatórios, mesmo porque há um problema recorrente nessas ferramentas: funcionários sob pressão geralmente não admitem esse estado. Esperam que o fato de estarem cedendo à pressão e à ansiedade possa levá-los a uma demissão, represálias de seus chefes e líderes e outros.

Contudo, há duas maneiras mais eficientes e objetivas de colher dados que realmente possam levar a um gráfico ou faixa de nível de estresse que possa ser considerada segura para colaboradores e positiva em termos de produtividade para a empresa.

Análise Comportamental

Por meio da análise do comportamento e elaboração de perfis comportamentais de colaboradores, lideranças e equipes, é possível identificar até que ponto determinados comportamentos são naturais dentro de cada um dos funcionários ou provocados por fatores externos relacionados à pressão e tensão no trabalho. Por vezes, questionários que tomam minutos podem revelar dados fundamentais para determinar níveis de estresse, suas consequências e muitas vezes até mesmo suas causas.

Caso um RH já disponha de perfis comportamentais em seus arquivos, o acompanhamento periódico pode mostrar com grande facilidade sintomas de estresse excessivo em colaboradores ainda no início do processo que pode levar a um desastre. Perfis comportamentais podem, inclusive, indicar para cada profissional que circunstâncias são capazes de gerar um estresse em níveis positivos ou não. Com base no estudo dos quatro perfis principais de comportamento – comunicador, planejador, executor e analista – é possível também realizar ações pontuais que elevem a produtividade de maneira focada, tanto pela geração de alguma pressão ou motivação por meio de estresse ou redução da carga emocional e do estresse excessivo, para retornar até um ponto otimizado de rendimento.

Medicina do trabalho

Trabalhando em conjunto com profissionais de medicina no trabalho, o departamento de recursos humanos pode acessar dados e informações que permitam determinar os focos de incidência de doenças ocupacionais decorrentes do estresse e da pressão. Assim, é possível separar o joio do trigo e, com o auxílio da análise comportamental, criar diretrizes que não apenas aliviem o estresse negativo, mas também possam ampliar a produtividade, reduzir o absenteísmo e melhorar a qualidade de vida e o bem-estar dos colaboradores.

Sim, com o auxílio de dados de saúde no trabalho, a mensuração e a criação de relatórios e gráficos objetivos é mais simples – além disso, chefias e outros departamentos tendem a considerar mais facilmente dados que estejam relacionados à saúde e segurança no trabalho, até levando em conta o caráter obrigatório das diretrizes nessa área.

Um bom RH é capaz de unir dados globais e transformá-los em informações localizadas e úteis. No caso do estresse, levar-se por informações de senso comum pode ser um erro e, como qualquer grande erro relacionado à gestão de pessoas, ele pode custar caro em termos de produtividade.

Motive seus colaboradores do jeito certo

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[…] repassadas no dia a dia. Além de resultar em uma não entrega do material planejado, pode causar um alto pico de estresse – que afeta diretamente seu […]