A aprendizagem incremental: o futuro da educação corporativa

Tempo de leitura: 4 minutos

Por Marcus Ronsoni
Presidente da Sociedade Brasileira de Desenvolvimento Comportamental e
Doutorando em Psicologia Social

Sempre que falo sobre aprendizagem, lembro de uma estória, de um palestrante francês que participou de uma grande convenção sobre educação superior aqui no Brasil, e cujo tema da palestra foi “Como Ensinar um Gato a Falar em Francês”. A estória conta que essa era a palestra mais esperada de todo o congresso. Os murmurinhos do evento giravam em torno deste assunto. Todos tinham enorme expectativa em ver o gato falando em francês. Chegado o momento, o palestrante franzino, magrelo e já curvado pelo peso da idade, e vestido ao estilo D’Artagnan, fez uma extenuante palestra, enriquecida com infindáveis slides contendo milhões de palavras e gráficos que justificavam sua teoria. Foram os mais longos 72 minutos da vida das pessoas que lá estavam.  Era um exercício de prática avançada de mindfulness, manter a atenção por mais de 5 minutos, mas ninguém arredou o pé do auditório lotado. Todos queriam ansiosamente ver o gato falando francês. Ao final, o palestrante agradeceu e começou a se retirar. Neste momento, todos os participantes em coro, gritaram “E o gato? Queremos ver o gato falando em francês!”  Então o palestrante retorna ao microfone e fala em voz baixa e mansa:

“Desculpa senhores, mas o gato não aprendeu! ” 

A moral dessa estória é que “se o foco estiver no ensino, você não garante a aprendizagem. O educador que sabe realmente ensinar é aquele que se preocupa com o “como os educandos aprendem”.

https://drive.google.com/file/d/1N-Hh7HWo8yWcyp0VtLm5Yk1qenYYebi-/view?usp=sharing

Nosso objetivo aqui não é discorrer sobre técnicas de aprendizagem, nem sobre os estilos de aprendizagem. Embora, como nos mostra a estória acima, esse seja um tema de altíssima importância para o exercício da mentoria, pois em essência a mentoria é um processo educacional e se você deseja ter maestria como mentor, deve sim se aperfeiçoar nessa competência.  Nosso objetivo é ampliar o entendimento sobre o que significa ser hábil em aprender para o atual momento das organizações. Nosso foco é decifrar essa competência.

Qual é o tipo de aprendizado que as organizações precisarão?

Entendemos que o aprendizado também está sofrendo uma modernização. Aprender na atualidade e para o futuro, é diferente do que já foi e essa capacidade será um dos pressupostos na diferenciação de quem é talento e quem é apenas mais um no mercado de trabalho.

A aprendizagem deixou de ser sinônimo de reter a informação e passa a ser a capacidade de utilizar a informação como matéria prima, que a partir de um processamento se transforma em algo mais elaborado, refinado e com valor agregado.  E não estou falando de um processamento simples, pois essa, a inteligência artificial fará muito melhor do que qualquer um de nós. Será necessário exercitar a capacidade de abstrair, sintetizar e contextualizar percebendo as aplicabilidades a partir de ideias gerais, conceitos, inspirações e divagações. Os sedentos por soluções estruturadas, com métodos construídos passo-a-passo e dicas práticas, que se cuidem. A aprendizagem concreta não diferencia. O que está sendo valorizado é o processamento criativo, onde a partir de uma palestra, um workshop, um livro, um vídeo ou qualquer outra fonte de inspiração e de conceitos universais, o profissional seja capaz de identificar os padrões, compreendê-los e criar novas práticas a partir desse aprendizado, muitas vezes propondo padrões diferentes, a partir do estudo dos padrões originais.

Quer um exemplo?  Vamos começar por esse texto. A forma com que o conteúdo está aqui construído não oferece uma receita de bolo, com uma aplicabilidade já contextualizada a sua realidade, onde você deve apenas seguir o passo-a-passo e pronto. O texto oferece uma orientação mais universal servindo como guia para que você utilize suas capacidades para digerir e decodificar esse conteúdo compreendendo quais são os ensinamentos-chaves e a partir deles, construindo drops de aplicabilidade, poderá utilizar no seu cotidiano para desenvolver as habilidades aqui propostas. Algumas pessoas quando se deparam com esse tipo de texto, simplesmente dispersam ou travam. Outras conseguem transformar essa inspiração em resultado a partir de um processamento criativo. As que dispersam e travam têm uma capacidade de aprendizagem mais concreta e cada vez menos valorizada. As que têm o poder contextualizar esse conteúdo transformando em algo prático e útil para o seu desenvolvimento, são os que tem os pré-requisitos de uma nova inteligência executiva que diferenciará os talentosos e bem sucedidos dos demais.

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